Tese

Tese de autonomia das sanções administrativas ambientais

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Cláudio Farenzena - Advogado de Direito Ambiental
Escrito por
Advogado Ambiental
49222/SC
Advogado inscrito na OAB/SC 49.222 e OAB/MT 35260/. Especialista em Direito Ambiental pela UFPR. Sócio do Escritório Farenzena Tonon Advogados. Vice-Presidente do Instituto de Direito Ambiental - IDAM. Idealizador do AdvLabs, do Direito Ambiental Experience, do FONADAM, do Direito Ambiental na Prática e da Mentoria Sala dos Conselheiros.

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A autonomia das sanções administrativas ambientais é o fundamento que sustenta a nulidade da decisão que mantém embargo ou apreensão depois de quitada a multa ambiental. Cada sanção do auto de infração ambiental exige exame próprio.

Esta tese não discute o acerto da autuação. O alvo é o vício da decisão administrativa que trata várias sanções como bloco único e decide todas pelo mesmo fundamento, sem enfrentar os pressupostos específicos de cada medida.

O destinatário é o advogado que precisa estruturar defesa administrativa, recurso administrativo ou ação anulatória, e o técnico ambiental que monta o dossiê de prova. O roteiro abaixo separa fundamento, cabimento e prova.

Roteiro da tese de autonomia das sanções administrativas ambientais

Resumo:

A tese sustenta que as sanções do art. 72 da Lei 9.605/1998 são autônomas entre si, e que o ato administrativo que aplica mais de uma precisa motivar cada uma separadamente, sob pena de nulidade parcial.

São 2 os efeitos simétricos dessa autonomia. O pagamento da multa ambiental não extingue embargo, apreensão, demolição, suspensão de atividade ou restritiva de direito. A recíproca vale: o fundamento que justifica a multa não justifica, por si, as demais sanções.

Essa construção funciona porque desloca a discussão do mérito da infração para a estrutura do ato sancionador. Autuação materialmente correta pode gerar sanção nula quando o órgão ambiental não demonstra o pressuposto próprio daquela medida.

Na prática, o resultado típico não é a anulação do auto de infração ambiental inteiro, e sim a queda da sanção que ficou sem fundamentação própria. Para o cenário prático que dá origem ao problema, vale a leitura do artigo sobre por que pagar a multa ambiental com desconto não encerra o processo administrativo.

Objetivo:

O pedido principal é a declaração de nulidade da sanção aplicada sem motivação própria, com efeito imediato: levantamento do embargo, liberação do bem apreendido ou restabelecimento do direito suspenso.

Como pedido subsidiário, vem a anulação da decisão administrativa com retorno do processo ao órgão ambiental, para que examine cada sanção em capítulo separado. Esse pedido serve quando há risco de o julgador entender que a falta de motivação é sanável.

Há um terceiro pedido, de ordem procedimental, que cabe sempre: o reconhecimento expresso de que a quitação da multa ambiental, com ou sem desconto, não implica renúncia à defesa quanto às demais sanções do mesmo auto de infração ambiental.

O efeito prático se mede em dias de atividade parada. Na propriedade rural, embargo de área produtiva e apreensão de máquina custam mais que o valor da multa ambiental, e por isso a ordem dos pedidos começa pela sanção não pecuniária. O portal publicou um modelo de defesa administrativa contra apreensão de bem com a multa ambiental já paga.

Fundamento legal:

As sanções estão listadas em incisos próprios no art. 72 da Lei 9.605/1998: advertência, multa simples, multa diária, apreensão, destruição ou inutilização do produto, suspensão de venda e fabricação, embargo de obra ou atividade, demolição de obra, suspensão de atividades e restritiva de direitos.

A técnica legislativa é o primeiro argumento. Cada inciso descreve medida com pressuposto próprio, e o §1º do mesmo artigo autoriza a aplicação cumulativa. Cumulação pressupõe individualização: não se cumula o que é um só.

O art. 3º do Decreto 6.514/2008 repete a lista no plano federal, e o art. 4º manda graduar a sanção pela gravidade do fato, pelos antecedentes do infrator e pela situação econômica dele. São 3 critérios que só operam sanção por sanção.

Já o dever de motivar cada medida vem do art. 50 da Lei 9.784/1999, que exige motivação expressa, com indicação dos fatos e dos fundamentos jurídicos, nos atos que imponham ou agravem deveres. Fundamentação genérica para sanções distintas não cumpre o dispositivo.

Por fim, a quitação do valor extingue apenas a obrigação de pagar aquela multa ambiental. Nenhum dispositivo da Lei 9.605/1998 ou do Decreto 6.514/2008 atribui ao recolhimento efeito extintivo sobre embargo, apreensão ou demolição aplicados no mesmo processo administrativo.

Quando a tese se aplica:

A tese cabe quando o auto de infração ambiental aplicou 2 ou mais sanções e a decisão administrativa tratou todas pelo mesmo fundamento, sem capítulo próprio para cada uma delas.

Cabe também na hipótese inversa, mais comum na rotina do escritório: o autuado pagou a multa ambiental com desconto e o órgão ambiental manteve o embargo ou a apreensão sem reexaminar o pressuposto daquela medida.

Existe um recorte importante quanto à apreensão. Lavrada como medida cautelar, e não como sanção, a apreensão exige demonstração do risco concreto que justificou a retirada do bem, e saber se a apreensão no processo administrativo ambiental é cautelar ou sanção precede a discussão.

O limite da tese é a decisão que já motivou cada sanção separadamente, ainda que de forma sucinta. Havendo fundamentação própria, a discussão volta ao mérito de cada medida e este roteiro perde a utilidade.

Este roteiro também não recupera valor de multa ambiental já paga. Vale conhecer o julgado em que a apreensão de bem foi anulada por desproporcionalidade, com a autuação mantida, porque mostra o alcance real do pedido.

O que é preciso provar:

A prova desta tese é documental e se monta com o próprio processo administrativo. São 2 fatos a demonstrar: que havia mais de uma sanção aplicada e que a decisão não enfrentou os pressupostos de cada uma.

  • Cópia integral do auto de infração ambiental, com todos os campos de sanção preenchidos
  • Termo de embargo, termo de apreensão ou termo de depósito, quando houver
  • Decisão administrativa de 1º grau na íntegra, para apontar o que ela deixou de enfrentar
  • Comprovante de pagamento da multa ambiental, com a data e o desconto aplicado
  • Defesa administrativa já protocolada, para demonstrar qual argumento ficou sem resposta
  • Laudo ou relatório técnico sobre a área embargada ou sobre o bem apreendido

No centro do dossiê está o confronto entre o rol de sanções e o texto da decisão. Monte um quadro de 2 colunas, com a sanção de um lado e o trecho que a fundamenta do outro, deixando visível a linha sem fundamentação.

A prova do prejuízo fecha o conjunto. Documento de uso da área embargada, nota fiscal do bem apreendido ou comprovante de contrato interrompido demonstram que a sanção mantida sem fundamento próprio produz efeito concreto e atual.

Perguntas frequentes

Pagar a multa ambiental com desconto impede discutir o embargo?

Não impede. O pagamento quita a sanção de multa ambiental e não alcança o embargo, que é sanção autônoma, com pressuposto próprio e defesa própria.

O art. 72 da Lei 9.605/1998 lista embargo e multa em incisos separados, e o §1º autoriza a cumulação. O prazo de defesa administrativa no plano federal é o do art. 113 do Decreto 6.514/2008: 20 dias contados da ciência da autuação.

Na rotina, o recolhimento costuma ser lido pelo órgão ambiental como reconhecimento da infração, o que enfraquece a discussão de mérito. Por isso a defesa quanto às demais sanções precisa ser protocolada antes do pagamento.

A autonomia das sanções administrativas ambientais anula o auto de infração inteiro?

Não anula. A tese derruba a sanção que ficou sem motivação própria e preserva as demais, inclusive a multa ambiental já quitada.

O fundamento é o art. 50 da Lei 9.784/1999, que exige motivação expressa, com indicação dos fatos e dos fundamentos jurídicos. O vício é de cada capítulo do ato, e não do auto de infração ambiental como um todo.

Esse recorte é vantagem processual, e não limitação. Pedido de nulidade total costuma ser rejeitado em bloco, enquanto o pedido de nulidade parcial permite ao julgador conceder o levantamento do embargo sem revisar a autuação.

A apreensão de bem exige fundamentação diferente da multa ambiental?

Exige. A apreensão retira o bem da posse do autuado e demanda demonstração do risco ou da destinação legal daquele bem, requisito que não se confunde com a dosimetria da multa ambiental.

O art. 72 da Lei 9.605/1998 trata a apreensão em inciso próprio, e o art. 4º do Decreto 6.514/2008 manda graduar a sanção pela gravidade do fato, pelos antecedentes e pela situação econômica do infrator.

Quando o órgão ambiental apreende máquina, veículo ou animal e justifica a medida apenas pela existência da infração, a apreensão fica sem fundamento específico e o pedido de liberação do bem ganha consistência.

Em que fase do processo administrativo esta tese entra?

Entra na defesa administrativa, no recurso administrativo e também na ação anulatória, porque o vício de fundamentação acompanha a decisão em todas as instâncias.

No plano federal o prazo de defesa é de 20 dias da ciência da autuação, pelo art. 113 do Decreto 6.514/2008, e o de recurso é de 20 dias da ciência da decisão de 1º grau, pelo art. 127 do mesmo decreto.

Perdidos os prazos administrativos, a tese segue utilizável na via judicial, com um custo: a execução fiscal pode já estar em curso, e o pedido passa a depender de tutela provisória para suspender o efeito da sanção.

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Tipo de material: Teses
Matérias: Direito Administrativo Ambiental
Tipificações: Art. 72 da Lei 9.605/98

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