Artigo

Artigo 29 da Lei 9.605 não alcança espécie exótica

O artigo 29 da Lei 9.605/1998 alcança só a fauna silvestre nativa ou em rota migratória. Animal exótico e doméstico ficam fora do tipo penal.

Cláudio Farenzena - Advogado de Direito Ambiental
Escrito por
Advogado Ambiental
49222/SC
Advogado inscrito na OAB/SC 49.222 e OAB/MT 35260/. Especialista em Direito Ambiental pela UFPR. Sócio do Escritório Farenzena Tonon Advogados. Vice-Presidente do Instituto de Direito Ambiental - IDAM. Idealizador do AdvLabs, do Direito Ambiental Experience, do FONADAM, do Direito Ambiental na Prática e da Mentoria Sala dos Conselheiros.

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A acusação costuma tratar todo animal mantido em casa como animal silvestre. Iguana, tartaruga comprada em loja, cão e gato recebem o mesmo tratamento, e o artigo 29 da Lei 9.605/1998 aparece na denúncia como se alcançasse qualquer espécie.

Não alcança. O artigo 29 da Lei 9.605/1998 protege espécimes da fauna silvestre nativos ou em rota migratória, e a categoria da espécie é elemento do tipo penal. Animal exótico e animal doméstico estão fora dessa figura típica. Se a espécie descrita não é silvestre, a conduta narrada não é o crime do artigo 29.

Ter animal exótico em casa é crime ambiental do artigo 29?

Não é. O artigo 29 da Lei 9.605/1998 foi escrito para a fauna silvestre, e animal exótico é aquele cuja ocorrência natural está fora do país. A espécie que não ocorre em território nacional e não passa por aqui em rota migratória fica fora do alcance do dispositivo.

Isso não é interpretação generosa a favor do acusado. É leitura do tipo penal. O legislador escolheu proteger a fauna silvestre e nomeou essa categoria dentro da norma, de modo que a espécie deixa de ser detalhe descritivo e passa a ser requisito de tipicidade.

Atendo com frequência quem responde a processo criminal por manter em casa uma iguana, uma píton ou uma tartaruga de loja. A denúncia transcreve os verbos do artigo 29, descreve o animal como silvestre e segue adiante sem nenhuma identificação técnica da espécie.

É nesse ponto que a defesa trabalha. A categoria da espécie precisa estar demonstrada nos autos, por laudo ou documento técnico, e não presumida pela aparência do animal.

Qual a diferença entre animal silvestre, exótico e doméstico?

São 3 categorias com regimes próprios, e a confusão entre elas é a origem da maior parte dos enquadramentos equivocados. O quadro abaixo reúne a definição de cada uma e o dispositivo que efetivamente alcança a conduta praticada contra ela.

Categoria Definição Dispositivo aplicável
Fauna silvestre espécie que ocorre em todo o território nacional ou que está em rota migratória artigo 29 da Lei 9.605/1998
Fauna exótica espécie de ocorrência natural fora do país, trazida para cá fora do artigo 29; maus-tratos pelo artigo 32
Animal doméstico animal sem estado silvestre, como cão, gato e bovino fora do artigo 29; maus-tratos pelo artigo 32

A fauna silvestre é a que ocorre em todo o território nacional, incluída a espécie que passa por aqui em rota migratória. É essa categoria, e só ela, que o artigo 29 da Lei 9.605/1998 tutela.

A fauna exótica tem ocorrência natural fora do país. Quem trouxe o animal de fora das fronteiras responde por conduta própria, e já tratei da diferença entre manter e introduzir espécime exótico no país, que é outro tipo penal, com outro verbo e outra prova.

Manter em casa o animal exótico que já estava no Brasil não preenche nenhum desses tipos penais.

O animal doméstico está igualmente fora da figura típica do artigo 29. Cão, gato e bovino não têm estado silvestre, e a conduta praticada contra eles, quando existir, encontra tipo próprio em outro dispositivo da mesma lei.

O artigo 29 protege animal em rota migratória?

Protege. A rota migratória está dentro da definição de fauna silvestre, e isso resolve um mal-entendido comum na defesa: o animal não precisa ser nativo em sentido estrito para estar sob o artigo 29.

A ave que cumpre ciclo migratório e passa pelo território brasileiro é fauna silvestre para efeito do dispositivo, ainda que venha de outro país. O critério não é a origem geográfica isolada, é a ocorrência no território nacional, natural ou migratória.

Essa diferença tem consequência prática direta. Alegar que o animal veio de fora não basta, porque vir de fora é compatível com rota migratória. O que afasta o artigo 29 é a espécie não ocorrer naturalmente no país nem passar por ele na migração.

Por isso a tese precisa ser construída sobre a identificação da espécie, com nome científico e classificação, e não sobre a procedência alegada pelo cliente. É uma distinção que todo advogado especializado em direito ambiental confere antes de escrever a resposta à acusação.

Maus-tratos a animal exótico é crime?

É crime, pelo artigo 32 da Lei 9.605/1998. A exclusão do animal exótico do artigo 29 não deixa a conduta sem punição: maltratar alcança animal silvestre, doméstico, domesticado, nativo e exótico.

A distinção entre esses dispositivos é de conduta. O artigo 29 cuida de matar, perseguir, caçar, apanhar e utilizar espécimes da fauna silvestre sem permissão. O artigo 32 cuida de praticar abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais.

Na prática da defesa, o risco é o inverso do que o cliente imagina. Derrubar o enquadramento no artigo 29 por se tratar de espécie exótica não encerra o caso se os autos descrevem animal em recinto inadequado, sem água, ferido ou debilitado.

Quando esses cenários aparecem juntos, a ordem das teses importa. Ataca-se antes a tipicidade do artigo 29 pela categoria da espécie, e só então se enfrenta a imputação de maus-tratos, que exige prova própria do abuso e da lesão.

Como a categoria da espécie derruba a denúncia por falta de materialidade?

A definição legal de espécie de fauna silvestre é elemento do tipo, e a denúncia que não demonstra tecnicamente a categoria da espécie carece de materialidade. Sem esse dado, a peça acusatória descreve um fato que pode não ser crime nenhum.

O pedido é objetivo: identificação da espécie por quem tenha habilitação técnica para isso. Auto de infração, boletim de ocorrência e relato do agente de fiscalização descrevem o que foi visto, e descrição visual não substitui classificação zoológica.

O peso desse requisito aparece no estudo sobre a guarda de animal silvestre no artigo 29 da Lei de Crimes Ambientais e num caso em que a guarda de animal silvestre sem dano não gerou condenação a indenizar. O raciocínio é o mesmo: sem demonstração técnica, não há o que subsumir.

O mesmo exame vale no campo administrativo, onde a categoria da espécie também define o dispositivo e a competência do IBAMA para licenciar criadouros de fauna exótica costuma ser discutida. Para quem já tem o animal há anos, a distinção entre animal silvestre e animal silvestre criado em cativeiro é o passo seguinte.

Conferir o texto do artigo 29 da Lei 9.605/1998 no portal do Planalto leva menos tempo do que discutir prova. A leitura da lei resolve boa parte desses processos, e é por isso que um advogado especializado em direito ambiental começa a análise pela categoria da espécie.

Perguntas frequentes

Comprei o animal exótico em loja com nota fiscal; isso me protege?

A nota fiscal de estabelecimento regular ajuda, mas não é o centro da defesa nesse caso. O que afasta o artigo 29 da Lei 9.605/1998 é a espécie ser exótica, de ocorrência natural fora do país e sem rota migratória pelo território brasileiro.

A nota serve para demonstrar a origem lícita e a boa-fé, o que repercute na dosimetria e no exame do elemento subjetivo. Mesmo assim, a identificação técnica da espécie continua sendo o documento decisivo, porque é ela que define se o tipo penal alcança a conduta descrita.

O IBAMA pode multar pelo animal exótico mesmo sem crime?

Pode haver autuação administrativa, e a esfera administrativa é independente da penal. A exclusão do artigo 29 da Lei 9.605/1998 afasta aquele crime, mas não impede o órgão ambiental de lavrar auto de infração com base em dispositivo próprio, como a falta de autorização para criação ou comércio.

A defesa administrativa segue a mesma lógica: conferir se o artigo indicado no auto de infração corresponde à categoria da espécie e à conduta efetivamente praticada. Erro de enquadramento na esfera administrativa tem consequência própria e precisa ser alegado no prazo de defesa.

Quem decide se a espécie é silvestre ou exótica no processo?

Quem decide é o juiz, com base em prova técnica, e não a autoridade que fez a fiscalização. A classificação depende de conhecimento zoológico sobre a ocorrência natural da espécie, o que exige laudo ou documento de órgão técnico competente.

Na defesa, o caminho é requerer essa identificação de forma expressa e apontar a ausência dela como falha de materialidade. Quando os autos trazem apenas a descrição visual feita no momento da apreensão, há espaço concreto para sustentar que a categoria da espécie não está demonstrada.

Tenho animal doméstico apreendido em fiscalização ambiental; cabe artigo 29?

Não cabe. Cão, gato, bovino e os demais animais sem estado silvestre estão fora da figura típica do artigo 29 da Lei 9.605/1998, e nenhuma circunstância da apreensão muda essa classificação.

O que pode existir, nesses casos, é imputação de maus-tratos pelo artigo 32 da mesma lei, que alcança animal doméstico. São dispositivos com conduta, prova e defesa diferentes. Receber a notícia de processo pelo artigo 29 envolvendo animal doméstico é motivo para conferir a capitulação antes de discutir o mérito da apreensão.

Conclusão

A distinção que fica é simples de enunciar e decisiva no processo: o artigo 29 da Lei 9.605/1998 alcança fauna silvestre nativa ou em rota migratória, e nada além disso. Animal exótico e animal doméstico pertencem a outros regimes.

O que decide o caso na prática não é o tempo de convivência com o bicho. É um documento técnico dizendo qual é a espécie e onde ela ocorre naturalmente. Sem esse documento, a acusação não fecha o tipo penal.

Quem responde a processo desse tipo deve reunir a nota fiscal ou o comprovante de origem, o registro do criadouro quando houver, as fotos do recinto em que o animal vive e qualquer laudo veterinário já existente. Esse conjunto sustenta a tese de atipicidade e a resposta a uma eventual imputação de maus-tratos.

Com esse material reunido, a pergunta que orienta a defesa passa a ser qual espécie está descrita, quem a classificou e com que base técnica. Os enunciados do FONADAM sobre direito ambiental sancionador e a página do IBAMA sobre biodiversidade ajudam a situar o tema.

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