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Alegue prescrição no mérito, não como preliminar processual

A prescrição é preliminar de mérito, não defesa processual. Onde alegá-la, por que faz coisa julgada material e como manter a exceção curta.

Cláudio Farenzena - Advogado de Direito Ambiental
Escrito por
Advogado Ambiental
49222/SC
Advogado inscrito na OAB/SC 49.222 e OAB/MT 35260/. Especialista em Direito Ambiental pela UFPR. Sócio do Escritório Farenzena Tonon Advogados. Vice-Presidente do Instituto de Direito Ambiental - IDAM. Idealizador do AdvLabs, do Direito Ambiental Experience, do FONADAM, do Direito Ambiental na Prática e da Mentoria Sala dos Conselheiros.

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O erro aparece em quase toda defesa que recebo para revisar: a prescrição escrita no capítulo das preliminares, ao lado da ilegitimidade de parte e da incompetência do juízo. A prescrição não é defesa processual. Ela é matéria de mérito, e o capítulo em que ela entra altera o efeito da decisão que a reconhece.

A prescrição é preliminar de mérito. O art. 487, II, do Código de Processo Civil diz que há resolução de mérito quando o juiz decide sobre a ocorrência de decadência ou de prescrição. Reconhecida a prescrição, a decisão produz coisa julgada material, e o mesmo pedido não volta em nova ação.

Na prática, o juiz examina a alegação em qualquer capítulo onde ela esteja, porque não pode ignorar matéria suscitada pela parte. O que o capítulo errado produz é outro efeito, e em execução fiscal de multa ambiental esse efeito custa o resultado do caso.

Prescrição é preliminar processual ou preliminar de mérito?

Prescrição é preliminar de mérito. O art. 337 do Código de Processo Civil lista as defesas processuais que a contestação apresenta antes do mérito, e a prescrição não está nessa lista.

O art. 487, II, resolve a dúvida de forma direta: decidir sobre prescrição é decidir o mérito. A terminologia da prática varia, matéria prejudicial de mérito em alguns manuais e prescrição preliminar de mérito em outros, mas o conteúdo é igual em ambos: a prescrição extingue a pretensão de punir ou de cobrar, e não o processo.

A distinção tem consequência. Defesa processual acolhida extingue o processo sem resolução de mérito, e o art. 486 do mesmo código permite que a parte proponha a ação de novo depois de corrigir o defeito. Mérito resolvido encerra a discussão.

Por isso a prescrição preliminar de mérito tem lugar próprio na peça: a abertura do capítulo de mérito, antes das teses de fato.

Prescrição reconhecida faz coisa julgada?

Faz. O art. 502 do Código de Processo Civil define coisa julgada material como a autoridade que torna imutável e indiscutível a decisão de mérito não mais sujeita a recurso. A prescrição preliminar de mérito reconhecida é decisão de mérito e entra nessa definição.

O efeito prático interessa ao autuado mais do que a classificação. Extinta a pretensão pela prescrição, o órgão ambiental não ajuíza outra execução fiscal pela mesma multa e não reabre a cobrança sob fundamento diferente, como mostra o caso em que a execução fiscal foi extinta por prescrição da multa ambiental.

Compare com o cenário do art. 485, em que o processo termina sem resolução de mérito por um defeito formal: falta de documento, citação viciada, ausência de pressuposto processual. Ali a Fazenda corrige o defeito e ajuíza de novo dentro do prazo que ainda tiver.

É essa diferença que eu explico ao cliente quando ele pergunta por que insisto na prescrição e não no vício da citação.

Quando ambas as teses estão presentes, a prescrição vem na frente, porque entrega resultado definitivo, e o vício formal fica como argumento subsidiário. Inverter essa ordem troca uma vitória definitiva por uma vitória provisória.

Prescrição é matéria de ordem pública?

É. Matéria de ordem pública é a que o juiz conhece de ofício, sem provocação da parte, e o art. 332, §1º, do Código de Processo Civil autoriza o juiz a julgar liminarmente improcedente o pedido quando verifica, desde logo, a prescrição.

Existe decisão em sentido contrário, e eu já li juiz afirmando que prescrição não é matéria de ordem pública. Quando isso aparece, quase sempre a razão está na peça do advogado, e não no entendimento do julgador.

Os tribunais tratam a prescrição como matéria de ordem pública, e o Superior Tribunal de Justiça já manteve a prescrição que anulou a multa ambiental.

O art. 487, parágrafo único, impõe um cuidado: salvo na hipótese do art. 332, §1º, a prescrição não é reconhecida sem que antes as partes tenham oportunidade de se manifestar. Ordem pública não dispensa contraditório.

Quem trata a prescrição como matéria de ordem pública e escreve a peça de acordo com isso raramente enfrenta esse problema.

Como alegar prescrição em exceção de pré-executividade?

Curta e objetiva. A Súmula 393 do Superior Tribunal de Justiça admite a exceção de pré-executividade na execução fiscal apenas para matérias conhecíveis de ofício que não demandem dilação probatória, e a prescrição preliminar de mérito é exatamente esse tipo de matéria.

A exceção existe porque o art. 16, §1º, da Lei 6.830/1980 não admite embargos antes de garantida a execução. Sem patrimônio para garantir o juízo, o autuado que tem a prescrição a seu favor ficaria sem defesa. A comparação entre pré-executividade, embargos e anulatória na execução fiscal detalha essa escolha.

O erro que vejo com frequência é alongar a exceção na narrativa dos fatos: a vistoria que não aconteceu, o laudo que não foi juntado, a área que já era consolidada. Cada página de fato entrega ao juiz o argumento de que a matéria exige prova, e ele remete o executado aos embargos, a via que exige garantia.

Na exceção entra o que se demonstra por data: a infração, a notificação do autuado, a decisão final do processo administrativo, a inscrição em dívida ativa e o ajuizamento. O resto fica de fora, como mostra a análise sobre alegar prescrição em exceção de pré-executividade.

Peça de 4 páginas com as datas certas vence onde peça de 30 páginas com teses de mérito é rejeitada. O modelo de exceção de pré-executividade por prescrição da multa ambiental segue esse formato, com a prescrição no capítulo de mérito.

Onde alegar a prescrição na defesa administrativa?

No mérito da defesa, pela mesma razão. O processo administrativo não tem a divisão formal de capítulos do Código de Processo Civil, mas a autoridade julgadora lê a defesa procurando o pedido, e prescrição alegada como preliminar de nulidade se perde no meio das outras nulidades.

Na esfera federal o prazo está na Lei 9.873/1999 e, no processo ambiental, no art. 21 do Decreto 6.514/2008: 5 anos para a administração apurar a infração, contados da prática do ato ou, na infração permanente, do dia em que ela cessou.

O mesmo art. 21 traz a prescrição intercorrente de 3 anos para o processo paralisado, e esse efeito alcança as medidas acautelatórias, porque a prescrição intercorrente extingue o processo e o termo de embargo ambiental.

Reconhecida a prescrição no processo administrativo, não há coisa julgada material, porque esse é efeito de decisão judicial. O resultado prático se aproxima: se o prazo já correu, um auto de infração novo pelo mesmo fato nasce igualmente prescrito, e a atividade de fiscalização e proteção ambiental do IBAMA está sujeita a esse prazo como qualquer outra.

O que o advogado especializado em direito ambiental reúne nessa fase é o histórico de datas do processo, não argumento novo.

A defesa administrativa também prepara a fase judicial. A tese de prescrição preliminar de mérito escrita no capítulo certo, com as datas organizadas, é a mesma que segue depois para a exceção de pré-executividade ou para a anulação do auto de infração ambiental por prescrição, sem retrabalho.

Perguntas frequentes

Alegar a prescrição no capítulo das preliminares prejudica a defesa?

Na maioria dos casos não anula a tese. A prescrição preliminar de mérito alegada no capítulo errado continua sendo matéria que o juiz tem o dever de examinar.

O prejuízo é de outra ordem. O capítulo errado indica despreparo técnico, e isso pesa quando o julgador precisa decidir se a peça merece análise cuidadosa ou leitura rápida.

Em exceção de pré-executividade o risco é concreto: peça desorganizada e alongada em fatos abre caminho para o juiz dizer que a matéria exige dilação probatória e rejeitar a exceção.

O juiz pode reconhecer a prescrição sem o advogado alegar?

Pode. A prescrição é matéria de ordem pública e o art. 332, §1º, do Código de Processo Civil autoriza o julgamento liminar de improcedência quando o juiz verifica a prescrição desde logo.

Isso não significa que a defesa deva confiar no reconhecimento de ofício. O juiz trabalha com as datas que estão no processo, e quem organiza essas datas é o advogado.

Há ainda o art. 487, parágrafo único: fora da hipótese do art. 332, §1º, o juiz não reconhece a prescrição sem antes ouvir as partes. A alegação clara economiza essa etapa.

Prescrição reconhecida na execução fiscal impede nova cobrança da mesma multa?

Impede. A decisão que reconhece a prescrição resolve o mérito pelo art. 487, II, do Código de Processo Civil e produz coisa julgada material na forma do art. 502.

O crédito não volta em outra execução fiscal, nem com nova certidão de dívida ativa, nem sob fundamento diferente. A pretensão de cobrar está extinta.

Diferente é a extinção sem resolução de mérito do art. 485, por defeito formal da inicial ou da certidão. Nesse caso a Fazenda corrige o problema e ajuíza de novo, se ainda tiver prazo.

Qual o tamanho adequado de uma exceção de pré-executividade por prescrição?

O tamanho que couber nas datas. A Súmula 393 do Superior Tribunal de Justiça só admite a exceção para matéria conhecível de ofício que não demande dilação probatória.

Na peça entram a data da infração, a data da notificação, a data da decisão administrativa final, a data da inscrição em dívida ativa e a data do ajuizamento, cada uma com o documento correspondente.

Ficam de fora a discussão sobre a vistoria, o laudo, a área consolidada e a dosimetria da multa. Essas teses têm lugar nos embargos ou na ação anulatória, não na exceção.

A prescrição no processo administrativo tem o mesmo efeito da judicial?

O efeito jurídico é diferente. Coisa julgada material é atributo de decisão judicial, e a decisão administrativa que reconhece a prescrição não produz esse efeito.

O resultado prático se aproxima bastante. Se os 5 anos do art. 21 do Decreto 6.514/2008 já correram, um auto de infração novo lavrado pelo mesmo fato também estará prescrito.

Por isso a prescrição administrativa reconhecida tende a encerrar o caso de fato, e o tutorial sobre prescrição em processos ambientais detalha cada prazo e cada marco de interrupção.

Conclusão

A distinção que o autuado leva deste texto é simples: defesa processual acolhida devolve o caso corrigido, e mérito resolvido por prescrição encerra o caso. É o art. 487, II, somado ao art. 502 do Código de Processo Civil que produz esse encerramento.

O que decide na prática não é a classificação, e sim a forma. A prescrição preliminar de mérito alegada no capítulo certo, com as datas na ordem e sem narrativa de fato desnecessária, é a peça que o juiz julga pelo prazo. Peça alongada em fatos é a peça que ele remete aos embargos.

Reúna, antes de qualquer discussão de mérito, o auto de infração com a data da lavratura, o comprovante de notificação, a decisão administrativa de primeira instância, a decisão do recurso, a certidão de dívida ativa e a data do ajuizamento da execução fiscal. Esse conjunto de documentos é o que sustenta a tese.

Quem recebeu auto de infração, multa ou embargo deve levar essas datas a um advogado especializado em direito ambiental antes de escolher a via, porque o prazo de cada etapa condiciona a peça cabível, e a leitura das hipóteses de exceção de pré-executividade na execução fiscal de multa ambiental ajuda a entender o que está em discussão.

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